Trânsito parado e mortífero

Pesquisa inédita da Agência Nacional de Transportes Públicos mostra o seguinte: em 438 municípios com mais de 60 mil habitantes os veículos cresceram 92% no período de 2003 a 2012, enquanto a ampliação das vias públicas foi de 16% (passando de 294 mil quilômetros para 341 mil quilômetros). O total de viagens cresceu 27%. Sem infraestrutura e sem nenhum planejamento, a mobilidade urbana está cada vez mais imobilizada. Poucas ruas, muito transporte individual e muitos carros. Essa é a equação da imobilização. Quando os veículos conseguem maior velocidade, matam muito: 35% de aumento no número de mortes (no mesmo período).

Em 2003, ocorreram 33.139 mortes no trânsito; elas passaram para 44.812, em 2012 (crescimento de 35%).

A disputa pelo espaço incrementa a acidentalidade. Esta faz crescer a mortalidade. Nossa urbanização é caótica. Mesmo sendo assim, o carro e o transporte individual foram priorizados no Brasil, não o transporte público. O descompasso entre o que é racional (o que os países evoluídos e distributivos fazem) e o que praticamos de irracionalidade é imenso. Desgaste emocional, ira, insatisfação e indignação. Com o efeito colateral da carnificina, que trucida milhares de corpos anualmente, regados a sangue.

Tudo deveríamos fazer para priorizar o transporte público (não o particular). Não temos infraestrutura suficiente (nem vamos ter em breve) para tantos veículos. Qualquer esboço de planejamento evidencia isso.

Por que somos como somos?

Nossa desorganização urbana é histórica. Na própria Bahia (enfatiza Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, p. 109), “o maior centro urbano da colônia, um viajante do princípio do século XVIII notava que as casas se achavam dispostas segundo o capricho dos moradores. Tudo ali era irregular, de modo que a praça principal, onde se erguia o Palácio dos Vice-Reis, parecia estar só por acaso no seu lugar. Ainda no primeiro século da colonização, em São Vicente e Santos, ficavam as casas em tal desalinho, que o primeiro governador-geral do Brasil se queixava de não poder murar as duas vilas, pois isso acarretaria grandes trabalhos e muito dano aos moradores”.

“A rotina e não a razão abstrata foi o princípio que norteou os portugueses, nesta como em tantas outras expressões de sua atividade colonizadora. Preferiam agir por experiências sucessivas, nem sempre coordenadas umas às outras, a traçar de antemão um plano para segui-lo até o ao fim” (S. B. De Holanda, cit.).

A ausência de planejamento dos nossos colonizadores impregnou a alma dos brasileiros. Não vieram para a “fazenda” (para o rural) para construir famílias ou um país. Vieram para uma aventura, para expropriar, para se enriquecer, para extrair o que encontrassem na natureza, matando e escravizando os índios e os negros. Os brancos europeus que vieram para toda América Latina, com o propósito de civilizar e cristianizar os bárbaros locais, eram, na verdade, mais bárbaros que os nativos (e destituídos de quaisquer princípios éticos). Manoel Bomfim, como sublinha Darcy Ribeiro, “teve olhos para ver que as teorias europeias do atraso e do progresso [da América], que os atribuíram ao clima, à raça, à religião católica, são, de fato, mistificações urdidas para disfarçar ações hediondas (grifei). O que se tomava por sabedoria científica é, a rigor, a ideologia do colonizador, consagradora de suas façanhas” (veja apresentação do livro A América Latina – Males de origem, de Manoel Bomfim, p. 14).

por Avante Brasil

 

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