OS JOVENS NA MIRA DO VÍRUS

Participação de não idosos em internações por COVID-19 cresce, gravidade dos casos aumenta e idade média diminui. Médicos veem comportamento de risco e falsa noção de invulnerabilidade.

“O percentual de pacientes mais jovens com necessidade de terapia intensiva aos pouquinhos vem subindo. (…) Ainda temos os idosos acima de 75, mas a porcentagem, que antes era de 80%, agora está em 60%” ■ Claudio Lemos, médico intensivista do Hospital Risoleta Tolentino Neves

Mistura de flexibilização de atividades, retomada do trabalho presencial, viagens em momento pouco oportuno, comportamento de risco e crença em baixa vulnerabilidade ao novo coronavírus vem fazendo dos jovens um dos grupos que inflam as internações por COVID-19 em Minas. Médicos que atuam na linha de frente do combate à pandemia relatam que a ocupação de leitos por não idosos cresce progressivamente, ao mesmo tempo em que a idade média dos internados cai. Hoje, no estado, entre crianças e as faixas mais avançadas (veja quadro) ,a média etária de casos não letais da doença é de 42 anos. E os quadros desses pacientes vêm se tornando mais graves.

“Muitos estão sendo intubados, respirando com aparelhos e grande parte está sendo letal”, diz Cristiano Pinheiro, que trabalha no Hospital de Campanha em Brumadinho, na Grande BH. Não por acaso, a participação de pessoas de menos de 60 anos no total de mortes pela COVID-19 está longe de ser desprezível: em Minas, representa 20% das vítimas, enquanto a capital fica pouco abaixo, com 16,6%. No Triângulo, onde o esgotamento dos leitos virou ameaça diária, dados da Universidade Federal do Triângulo Mineiro indicam que, nesta fase da epidemia, jovens entre 20 e 30 anos têm sido os mais afetados na cidade de Uberaba. A situação é tão grave que o município baixou decreto proibindo festas e punindo com multa não apenas os organizadores, mas os próprios participantes. Uma forma de tentar reduzir a pressão sobre a saúde e evitar que se concretizem previsões de um mês sombrio, como teme o intensivista Claudio Lemos, do Hospital Risoleta Tolentino Neves, em BH, que tem leitos no limite. “Estamos lotados; março vai ser um mês triste.”

Marisa Pereira