Destaques nas principais Revistas desta Semana, Sábado, 06 de Dezembro de 2014

Revista VEJA
A OPERAÇÃO LAVA-JATO E O PT
O partido do PT tem muito que explicar sobre os escândalos depois da acusações, depois de receber propina nas campanhas eleitorais.
Resta ÉPOCALava Jato: As investigações do petrolão chegam a um momento decisivo
É preciso que a atuação da polícia e do Ministério Público se sobreponha às forças que querem parar o processo para evitar uma crise.
Revista ISTOÉ
As articulações de Janot que podem livrar o governo
Procurador-geral da República participa de uma série de encontros com representantes das empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato e propõe um acordo que impede investigações que possam chegar ao Palácio do Planalto.

capa380Revista VEJA

A OPERAÇÃO LAVA-JATO E O PT
O partido do PT tem muito que explicar  sobre os escândalos depois da acusações, depois de receber propina nas campanhas eleitorais.
Em acordo de delação premiada firmado no âmbito das investigações da Operação Lava Jato, um dos executivos da empresa japonesa Toyo Setal deu um testemunho de estremecer. Ao confirmar que participava do cartel que comandava as obras da Petrobras, Augusto Ribeiro de Mendonça Neto afirmou que parte do dinheiro roubado da estatal abastecia o caixa do PT, simulando uma doação legal. Reportagem de VEJA mostra por que as revelações do delator fizeram o partido tremer.

 Empresários dizem à polícia que pagaram propina ao PT. Um novo elo na rede do escândalo da Petrobras. Os efeitos no Brasil e no mundo da queda no preço do petróleo. O executivo Augusto Ribeiro de Mendonça Neto revela detalhes do propinoduto na Petrobras.

O PT treme de novo

Em 2005, Duda Mendonça confessou ter recebido do PT 5 milhões de dólares por debaixo do pano, dinheiro depositado em contas bancárias no exterior. Era o começo do mensalão. Agora, empresários admitem ter pago 150 milhões de reais em propina ao PT e a aliados. É o início do petrolão

Robson Bonin e Alexandre Hisayasu

Augusto Ribeiro de Mendonça Neto: ele confessou à PF ter pago 150 milhões de reais de propina para manter contratos com a Petrobras – e disse que parte desse dinheiro foi abastecer o caixa eleitoral do PTAugusto Ribeiro de Mendonça Neto: ele confessou à PF ter pago 150 milhões de reais de propina para manter contratos com a Petrobras – e disse que parte desse dinheiro foi abastecer o caixa eleitoral do PT (Leo Pinheiro/Valor/VEJA.com)

O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, o primeiro a fazer acordo, revelou como funcionava a quadrilha dentro da estatal, as vinculações partidárias dos criminosos e a identidade dos empreiteiros envolvidos. Depois dele, foi a vez de o doleiro Alberto Youssef apresentar o nome de aproximadamente cinquenta políticos que receberam propina, entre deputados, senadores, governadores e ministros. O mosaico do golpe bilionário aplicado contra a Petrobras começou a ganhar forma a partir das informações, das pistas e das provas fornecidas pelos dois delatores. Na semana passada, o juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, divulgou um conjunto de depoimentos prestados por executivos da empresa Toyo Setal, uma das fornecedoras de serviços à Petrobras, que acrescentam ao caso ingredientes com imenso potencial de destruição. Segundo esses relatos, o PT não só é apresentado como o responsável pela montagem e pela operação do esquema de corrupção na estatal como também se nutriu dele. E ainda mais grave: dinheiro da corrupção pode inclusive ter ajudado a eleger a presidente Dilma Rousseff.

Em 2005, o marqueteiro Duda Mendonça assombrou o país ao revelar a uma CPI do Congresso os detalhes da engenharia criminosa montada pelo PT para pagar as dívidas da campanha presidencial de Lula. Contratado pelo partido para cuidar da propaganda eleitoral de 2002, Duda recebeu parte do pagamento — 5 milhões de dólares — em depósitos clandestinos no exterior. Era o início do até então maior escândalo de corrupção da história. Sob os holofotes do Congresso, Duda mostrou extratos, ditou o nome dos bancos estrangeiros e os valores ocultos pagos lá fora. A história do partido mudaria para sempre desde então. Seus líderes — definidos pelos ministros do Supremo Tribunal Federal como “profanadores da República” — foram julgados, condenados e enviados à cadeia. No auge da crise, o PT temeu sucumbir à gravidade dos seus pecados, mas resistiu, reelegeu Lula, elegeu e reelegeu Dilma Rousseff, mas, ao que parece, não aprendeu nada com o susto do mensalão.

Em acordo de delação premiada, Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, um dos executivos da japonesa Toyo Setal, confirmou que participava de um cartel de empresas que comandava as obras da Petrobras e, em contrapartida, entregava uma parte de seus ganhos aos partidos do governo — exatamente como disseram o ex-diretor Paulo Roberto e o doleiro Youssef. No caso da empresa japonesa, o “acerto” era feito com o diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque. Militante petista, Duque foi alçado ao posto por indicação do mensaleiro José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil, atualmente cumprindo pena de prisão por corrupção. Duque seria o responsável por coletar a parte do PT junto às empreiteiras que integravam o chamado “clube” do bilhão. Era ele também que decidia os valores que deveriam ser repassados diretamente ao partido. “Os pagamentos se deram de três formas: parcelas em dinheiro, remessas a contas indicadas no exterior e doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores”, declarou o empresário. Definidos os porcentuais e a metodologia de distribuição, os detalhes eram combinados com o tesoureiro do PT, João Vaccari. É desse trecho do depoimento que eclode uma constatação de estremecer: o delator confirmou que a Toyo Setal enviou parte do dinheiro roubado da Petrobras ao caixa eleitoral do PT, simulando uma doação legal.

Congresso
O governo chantageia os parlamentares
São Paulo
A Polícia Federal indicia 33 pelo cartel dos trens
Conjuntura
Os sinais contraditórios da política de Dilma
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cp_24534578994734974Revista ISTOÉ

As articulações de Janot que podem livrar o governo

Procurador-geral da República participa de uma série de encontros com representantes das empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato e propõe um acordo que impede investigações que possam chegar ao Palácio do Planalto

Mário Simas Filho

Há sete meses o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, vem se reunindo com representantes das empreiteiras envolvidas no esquema de corrupção instalado na Petrobras e investigado pela Operação Lava Jato. ISTOÉ apurou que de maio até a última semana foram realizados pelo menos quatro encontros com a presença do próprio Janot e outros dois com procuradores indicados por ele (leia quadro nas páginas seguintes). O objetivo dessas conversas, que inicialmente foram provocadas pelos empresários, é o de buscar um acordo no Petrolão. No Brasil, onde a legislação da delação premiada ainda engatinha, não é comum que o chefe do Ministério Público mantenha conversas com representantes de empresas envolvidas em um processo criminal. Mas, em se tratando de um caso com a alta octanagem que têm as investigações da Operação Lava Jato, as reuniões de Janot com os empreiteiros não poderiam, a princípio, ser tratadas como um pecado. Trata-se de uma prática comum nas democracias mais maduras, cujo principal objetivo não é o de evitar punições, mas o de acelerar as investigações e permitir que o Estado adote medidas concretas e imediatas para evitar a repetição de atos criminosos. O problema dos encontros de Janot é que, segundo advogados e dois ministros do Supremo Tribunal Federal ouvidos por ISTOÉ na última semana, o acordo que vem sendo ofertado pelo procurador-geral nos últimos meses poderá trazer como efeito colateral a impossibilidade de investigar uma suposta participação do governo no maior esquema de corrupção já descoberto no País. Na prática pode ser um acordão para livrar o governo.

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DELAÇÃO
As revelações de Costa serviram para colocar empreiteiros na cadeia,
mas não foram suficientes para iniciar as investigações contra os políticos

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JANOT
O procurador-geral espera que a delação do doleiro
Youssef seja aceita para ir ao STF contra parlamentares

Na sexta-feira 5, através de sua assessoria, Janot confirmou os encontros com representantes das empreiteiras e negou que esteja negociando um acordão. “Como os investigados não têm prerrogativa de foro, os acordos devem ser tratados com os integrantes da força-tarefa da Operação Lava Jato, no Paraná”, diz o procurador. Nas conversas que manteve com representantes dos empresários, porém, Janot, segundo advogados ouvidos por ISTOÉ, definiu qual o modelo de acordo interessa à Procuradoria. Ele quer que as empresas, seus diretores e executivos assumam a responsabilidade pelos crimes investigados. Pede que as empresas reconheçam a formação de cartel e que concordem em pagar multas recordes (no caso da Mendes Júnior, estudos preliminares feitos pelos empreiteiros indicam que a multa poderá até inviabilizar a sua continuidade no setor de construção civil). Ainda de acordo com os advogados, Janot sugere que na delação premiada sejam feitas menções a políticos de diversos partidos, e não só os da base aliada do governo, e que as empresas abram mão de recorrer aos tribunais superiores. Em troca, as empreiteiras continuariam a disputar obras públicas e seus dirigentes poderiam cumprir as futuras penas em regime de prisão domiciliar. Os casos dos parlamentares mencionados serão remetidos ao Supremo Tribunal Federal (STF) para investigações posteriores. “Isso é um absurdo. Embora não acredite que seja essa a motivação do procurador, um acordo nesses termos protege o governo de eventuais investigações”, disse à ISTOÉ um ministro do STF na tarde da quinta-feira 4, sob o compromisso de manter o anonimato para não ser impedido de participar de futuros julgamentos provenientes da Operação Lava Jato. Segundo este ministro, ao admitir a formação de cartel e apontar o nome de parlamentares que teriam se beneficiado, as empreiteiras estariam indiretamente colocando o governo na situação de vítima de um esquema montado pelos empresários e alguns agentes políticos, sem que fosse de seu conhecimento e do qual não obteve nenhuma benesse financeira ou política. E, ainda conforme o mesmo ministro, proibir que as empresas recorram aos tribunais superiores pode impedir que elas venham a participar como colaboradoras nas investigações contra as autoridades com foro privilegiado.

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“Se cabe ao STF investigar os políticos com foro especial, limitar que pessosas que participaram do esquema recorram ao tribunal é violar o direito de defesa e reduzir o alcance da investigação”, afirmou um outro ministro do STF ouvido por ISTOÉ. A iniciativa de buscar um acordo com a procuradoria partiu da Camargo Corrêa. A proposta era a de mobilizar os empreiteiros para um entendimento comum. Em 14 de junho, Janot recebeu os advogados José Geraldo Grossi, Pierpaolo Bottini e Márcio Thomaz Bastos. Em 20 de outubro, quase um mês depois de homologada a delação premiada de Paulo Roberto Costa – o ex-diretor da Petrobras que revelou a existência do propinoduto na estatal e listou empreiteiras e políticos que teriam participado do esquema –, o procurador recusou uma minuta de acerto elaborada por Thomaz Bastos. Assim, o projeto de um acordo comum a todas as empresas envolvidas acabou não prosperando. “Nessa época, ficou evidente o que o procurador-geral buscava e como ele, os procuradores da força-tarefa e o juiz Sérgio Moro iriam agir para forçar as empresas ou parte delas a participar do acordão nos termos propostos pela procuradoria”, disse um dos advogados. Entre os delegados e procuradores da Operação Lava Jato existe a convicção de que manter alguns dos envolvidos na prisão facilita a obtenção de delações premiadas. E as revelações feitas por Costa permitem ao juiz Sérgio Moro decretar as prisões temporárias e provisórias. Uma estratégia que vem dando resultados, apesar das críticas feitas por alguns setores da sociedade civil. “É inadmissível que prisões provisórias se justifiquem para forçar a confissão de acusados. O combate à corrupção não legitima o atentado à liberdade”, registra manifesto do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil aprovado na terça-feira 2.

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Em 13 de novembro, atendendo a pedidos de Janot, os representantes das empreiteiras participaram de encontro com procuradores da força-tarefa, em Curitiba. Entre os presentes estavam os advogados Roberto Telhada, Maurício Zanoide, Dora Cavalcanti, Alberto Toron, Celso Villardi e Pierpaolo Bottini. Cinco procuradores representavam a Operação Lava Jato, entre eles Carlos Fernando dos Santos Lima e Orlando Martello Júnior. Não houve consenso e os procuradores insistiam na fórmula defendida por Janot. No dia seguinte foi deflagrada a sétima etapa da Operação Lava Jato, batizada de Juízo Final, que levou para a cadeia executivos e diretores das principais empreiteiras do País. “É evidente que, com os seus principais quadros na prisão, muitos tendem a acatar as propostas da procuradoria”, afirma um dos advogados. Em 16 de novembro, a Toyo Setal aceitou a delação premiada em termos muito próximos do que vem sendo buscado pelo procurador-geral e, em seus depoimentos, os executivos da empresa delataram a formação de cartel e listaram como beneficiários das propinas não só partidos da base do governo como também da oposição. Na quinta-feira 4, o vice-presidente da Camargo Corrêa, Eduardo Leite, também teria feito acordo de delação premiada.

Dez dias depois das prisões, o advogado Celso Villardi voltou a se reunir com Janot, mas o procurador não abriu mão de que haja a admissão de culpa de executivos e diretores das empreiteiras para que houvesse um acordo. O último encontro de Janot com representantes das empreiteiras ocorreu em Brasília, na terça-feira 2. Os advogados Celso Villardi, Maurício Zanoide, Dora Cavalcanti, Alberto Toron e Roberto Telhada levaram uma proposta de acordo que foi prontamente rechaçada. A exemplo do que é comum em paí-ses como os Estados Unidos e a Inglaterra, os empreiteiros admitem o pagamento de multas milionárias, concordam em colaborar com o Ministério Público fornecendo dados que permitam aprofundar as investigações, se comprometem a não repetir os mesmos erros, mas recusam a confissão das pessoas físicas e a abrir mão de recorrer aos tribunais superiores, caso julguem necessário.

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MAGISTRADOS
Zavascki, do STF (abaixo), vai investigar os políticos descobertos
nos processos conduzidos por Moro (acima)

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De acordo com os advogados e ministros ouvidos por ISTOÉ, a postura tomada por Janot nas últimas semanas procura forçar as empreiteiras a aderirem ao acordo e acaba favorecendo o braço político do Petrolão. Há mais de dois meses a Justiça homologou a delação premiada do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. Isso significa que as informações prestadas por ele sobre os milionários desvios de recursos ocorridos na estatal passaram por uma primeira análise e foram consideradas relevantes. Com base nesses depoimentos e na comprovação de centenas de movimentações financeiras realizadas no Brasil e no exterior, diretores e executivos das maiores empreiteiras do País estão presos. Com os políticos acusados por Costa de receberem boa parte dos recursos roubados da Petrobrás a situação é outra, apesar de as provas serem as mesmas. Para que as investigações sobre eles sejam iniciadas é preciso que Janot faça uma denúncia ao ministro Teori Zavascki, do STF. O procurador-geral, no entanto, tem dito que só tomará essa medida depois de homologada a delação do doleiro Alberto Youssef. Enquanto isso, empreiteiros que continuam presos podem aderir ao acordão. Quando o caso chegar no STF, segundo os advogados ouvidos por ISTOÉ, os rumos poderão ser diferentes. “No STF poderemos saber exatamente do que somos acusados e responder a tudo, inclusive apontar todos os envolvidos”, asseguram pelo menos dois grandes empreiteiros citados na Operação Lava Jato.

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Fotos: Alan Marques/Folhapress; Elza Fiuza/ABR, Daniel Wainstein/Folhapress; Adi LeiteAg. O Globo; FABIO RODRIGUES-POZZEBOM/ABR; ANIELE NASCIMENTO/GAZETA DO POVO/AE, JF DIORIO/ESTADãO CONTEúDO; Foto: Leticia Moreira/ Folhapress; MARCOS BEZERRA/FUTURA PRESS; DIDA SAMPAIO/AGÊNCIA ESTADO 

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epocaRevista ÉPOCA

Adolescência os pais atrapalham

O segredo para criar jovens, saudáveis, educados e estudiosos, é deixar que eles cresçam em paz.

Há oito anos, o casal de pesquisadores Mario e Alice passou por um dos períodos mais delicados de suas vidas – na definição deles mesmos. Por dois anos, conviveram com três adolescentes dentro de casa. Marco, o mais velho, tinha 17 anos, e Marcelo, o do meio, 14, quando a caçula, Gabriela, mostrou os primeiros sintomas de sua entrada na adolescência, aos 12. “Já tínhamos o faro treinado. Foi fácil perceber que a Gabi estava diferente, pelo jeito de ela olhar e falar com a gente”, diz Mario. “Pensei na hora: acabou. O único filho que ainda gostava do nosso ninho partiu para outro grupo. Agora, somos nós aqui, e eles lá”, diz Alice. Lá, onde?  “Onde tudo o que a gente faz ou fala está errado, inadequado e ultrapassado. Lá, naquela fase em que até nossa aptidão como seres humanos é contestada”, diz Mario. A afirmação provoca risos nos dois filhos, ao ouvir o depoimento dos pais. Marco agora tem 25 anos, e Marcelo, 22. Para garantir que pais e filhos pudessem falar abertamente de suas experiências, sem censura ou constrangimento, os nomes de pais e adolescentes que aparecem nesta reportagem foram trocados. Ainda assim, Gabriela, hoje com 20 anos, não quis participar. “É importante para ela proteger sua individualidade. É uma fase”, diz Alice.

Ao ouvir Mario e Alice discorrer sobre seus filhos, me preparo para o relato das roubadas em que os jovens bonitos sentados à minha frente se meteram para gerar tanto transtorno na vida de seus pais. “Ah, foram terríveis. Chegaram a ser insuportáveis. Houve momentos em que senti medo da reação deles…”, diz Alice. Diante do desfile de adjetivos e ausência de fatos concretos, pergunto objetivamente: eram maus alunos? “Não, isso não. Nenhum dos três deu trabalho na escola”, diz Mario. Bebiam muito? “Olha, houve aquela vez em que o Marcelo chegou meio carregado e passou o final de semana na cama. Mas acho que foi isso”, afirma Alice. E quanto a drogas? “Acho que experimentaram. Nunca nos contaram. Falamos abertamente sobre os riscos. Não me preocupei muito com isso”, diz Mario. “Me preocupava. Mas nenhum problema chegou até nós”, diz Alice. Foram agressivos, do tipo que batiam em colegas? “Não, claro que não”, dizem. Foram agressivos com vocês? Por que tinham medo da reação deles? “Foram ríspidos”, diz Alice – e imediatamente os filhos protestam.

“Mamãe, você repetia o mesmo conselho 20 vezes! Parecia que tínhamos 5 anos”, diz Marco. Insisto com os pais. Que fatos fizeram aquele período ser tão terrível? “Nos tornamos invisíveis”, diz Mario. “Pior que isso. Tudo o que dizíamos parecia sem importância. Às vezes, quando estava mais sensível, deixava de falar alguma coisa com medo de tirarem sarro e eu acabar chorando ou brigando com eles”, diz Alice. Marcelo tem outro ponto de vista: “Não éramos mais crianças, mas eles nos tratavam como se fôssemos”.

Marco, Marcelo e Gabriela deram a seus pais o tipo de preocupação que jovens que começam a namorar, sair à noite e ter interesses próprios dão. Fizeram os pais buscá-los no meio da madrugada. Apareciam com amigos para dormir em casa sem avisar, como se privacidade fosse algo que cinquentões não precisam mais ter. Aprontavam pequenas trapaças estudantis, como esconder que estavam mal em trigonometria até que fosse quase tarde demais para encontrar um professor particular. Fora isso, os três foram o que se pode chamar de bons filhos. São inteligentes e capazes de estabelecer laços de amizade e relações de afeto saudáveis com quem convivem, e também com seus pais. Foram bem na escola e entraram em boas faculdades. Dois deles estão na PUC – a Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo. O mais velho estudou na Universidade Federal do ABC, na cidade de Santo André, onde Alice trabalhava.

Quando se pergunta a eles sobre a própria adolescência, não contam nada de extraordinário. “Eu não tinha dinheiro para nada, mas era até divertido”, diz Marco. “Eu ainda não tenho”, afirma Marcelo, e ri. Nada no depoimento deles lembra o drama emocional vivido pelos pais no mesmo período. É como se eles e seus pais tivessem vivido em planetas diferentes, não na mesma casa de classe média da Zona Sul de São Paulo.

A experiência da família de Mario e Alice não é rara. Um novo livro lançado no início do ano nos Estados Unidos, All joy & No fun (ele será lançado no Brasil em abril de 2015, pelo selo Bicicleta Amarela, da Rocco, com o título provisório Muita alegria, pouca diversão), defende uma tese simples e provocativa: a adolescência gera mais sofrimento nos pais que nos jovens que passam por ela. Escrito pela jornalista americana Jennifer Senior, o livro se baseia em estudos e em sua experiência de 20 anos escrevendo sobre família para a revista New York. “Noto há muito tempo dois fenômenos. O primeiro é o tipo de reclamação que ouço de pais de adolescentes”, diz Jennifer. “O segundo é o fato de os filhos desses pais serem pessoas absolutamente normais, e do bem.”

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Fronteiras da robótica
O futuro prometido pelos drones

Lava Jato: As investigações do petrolão chegam a um momento decisivo

É preciso que a atuação da polícia e do Ministério Público se sobreponha às forças que querem parar o processo para evitar uma crise.

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depoimento

Na terça-feira, a sessão da CPMI que investiga a corrupção na Petrobras começara havia apenas cinco minutos, quando o deputado petista Sibá Machado fez sua primeira intervenção. “Senhor presidente, só para consulta: Vossa Excelência adotará também inscrição das lideranças, fora essa?”, disse ao senador Gim Argello, do PTB, responsável por conduzir naquele dia os trabalhos da CPMI. Em outras mais de 30 vezes em que falou, Sibá não perguntou nada. Apenas tentou evitar que outros parlamentares questionassem os ex-diretores da Petrobras Paulo Roberto Costa, delator do esquema, e Nestor Cerveró, numa rara oportunidade colocados frente a frente para falar sobre os desvios na estatal. Durante as três horas e 22 minutos da sessão, os 31 parlamentares presentes gastaram tempo em discussões regimentais, como a levantada por Sibá, e exploraram apenas na lâmina d’água os poços de informações Costa e Cerveró. No campo da corrupção, que realmente interessava, não extraíram nada de novo deles. Foi apenas um show.

Se o escândalo do petrolão fosse um filme, seria um épico com duas tramas paralelas e antagônicas. A primeira transcorre em Brasília, tem cunho político e se dá em sentido contrário ao esclarecimento dos fatos. A segunda, policial, acontece em Curitiba e narra uma das investigações mais profundas já feitas no Brasil. No dia seguinte ao triste espetáculo na CPMI, quarta-feira, ocorreu mais um ato. O juiz federal Sergio Moro tornou públicos 21 depoimentos concedidos pelos representantes da empreiteira Toyo Setal, Augusto Mendonça e Júlio Camargo, sob as regras de um acordo de delação premiada. Como o site de ÉPOCA publicou em primeira mão, Mendonça e Camargo afirmaram que o PT foi o partido mais beneficiado pelas propinas pagas pelo “clube” de empreiteiras que dominavam os maiores contratos da Petrobras. Eles deram detalhes minuciosos sobre os pagamentos e o esquema de corrupção na estatal. Os pagamentos eram feitos de três formas: “parcelas em dinheiro”; remessas em contas indicadas no exterior; e doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores (PT), segundo disse Mendonça em seu depoimento. Ele afirmou que o então diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, solicitou que ele fizesse doações ao PT. “As quais foram feitas entre os anos de 2008 e 2011”, afirmou no depoimento. Segundo Mendonça, o PT foi o partido mais beneficiado pelos pagamentos. Eram, segundo o depoimento de Camargo, doações feitas regularmente ao caixa do partido. Há detalhes da conta indicada por Duque no exterior. Chama-­se “Marinelo”.

Foi a primeira vez que empreiteiros admitiram ter pagado propina ao PT em troca de contratos na Petrobras. O depoimento envolve uma figura central do PT, o vice-presidente de Finanças do partido, João Vaccari Neto. No depoimento, Mendonça afirma que procurou Vaccari para fazer as doações pedidas por Duque. “Conversou pessoalmente com João Vaccari no escritório deste, no Diretório do PT em São Paulo/SP, no ano de 2008, e disse que gostaria de fazer contribuições ao Partido dos Trabalhadores e perguntou a ele como elas poderiam ser feitas”, registra o depoimento. Augusto afirma que doou R$ 4 milhões ao PT. Os pagamentos ao PT no exterior foram feitos, segundo Mendonça, na tal conta “Marinelo”.

Num contrato de R$ 2,8 bilhões firmado por sua empresa com a Petrobras para obras na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), no Paraná, Mendonça afirmou que seu colega Camargo enviou R$ 20 milhões para a “Marinelo”. Noutra obra, na Estação de Compressão de Gás de Cabiúnas, no Rio de Janeiro, a propina ficou entre R$ 10 milhões e R$ 20 milhões, segundo Mendonça. Na ocasião, a transferência foi de R$ 3 milhões. Metade desse dinheiro saiu de uma conta no banco Safra Panamá, de uma empresa de fachada de Mendonça, e também foi para a “Marinelo”. Os valores pagos em dinheiro eram entregues por Mendonça num escritório em São Paulo a um emissário de Duque, que ele identifica como “Tigrão” – um homem “moreno, 1,70 a 1,80 metro, meio gordinho, idade aproximada de 40 anos”. As confissões só chegaram a esse ponto porque a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Justiça trabalharam duro e em harmonia durante meses.

Enquanto isso, a CPMI da Petrobras, criada no final de maio, se encerrará em duas semanas sem revelações significativas. A relutância dos parlamentares em investigar empreiteiras, grandes financiadoras de campanhas, atrasou e manietou seus trabalhos. É certo que investigações políticas, como as feitas pelo Congresso, não se comparam às atuações de policiais ou procuradores. Numa sessão como a da semana passada, parlamentares como Sibá Machado exercem seu papel de defensores do governo, não de investigadores. Apesar dos esforços de técnicos empenhados e do imenso material coletado, a CPMI caminha para um fim irrelevante, quando comparada a outras, como a CPI dos Correios, que ajudou a desvendar o esquema do mensalão.

Os parlamentares da CPMI da Petrobras apresentaram, até a semana passada, 913 requerimentos para obter informações; 413 deles nem foram apreciados; e 38 estão pendentes de informações. Um deles pedia a convocação do lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, revelado por ÉPOCA em março como operador do PMDB na diretoria Internacional da Petrobras. A CPMI até hoje não conseguiu obter o número do CPF de Baiano. Há duas semanas, ele se entregou à Polícia Federal. Apenas em 17 de novembro os parlamentares aprovaram um pedido de quebra do sigilo bancário pessoal de Vaccari – um dado pouco relevante àquela altura das investigações.

A CPMI patina em tentativas de proteção e rusgas políticas. Há três semanas, o presidente da CPMI, senador Vital do Rego, do PMDB, saiu do gabinete da presidência do Senado para o plenário, com a missão de evitar a convocação do ex-senador Sergio Machado, presidente afastado da Transpetro, subsidiária da Petrobras. Bancado no cargo por 11 anos pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, Machado foi acusado por Paulo Roberto de entregar-lhe R$ 500 mil em propina. Vital não conseguiu.  Machado foi convocado, mas não terá tempo de vir ainda neste ano. Nem Vital deverá estar na cadeira se ele aparecer. Na semana passada, quando Costa e Cerveró estavam na CPMI, Vital tratava de sua indicação para uma vaga de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU). Por quatro anos seguidos, ele foi convidado pela Petrobras para desfrutar seu luxuoso camarote no Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1, em Interlagos. Vital fruiu a comida e a bebida do camarote da Petrobras e sentiu a emoção da velocidade pelo menos numa das vezes em que foi convidado, em 2011, com as passagens aéreas pagas pelo Senado. Quando a coluna de Felipe Patury revelou o fato em ÉPOCA, Vital disse que “atendeu a um convite da empresa mais importante do país para comparecer ao evento esportivo mais importante do país, assim como outras autoridades o fizeram”. No TCU, como no Senado, Vital atuará na investigação sobre a Petrobras.

No dia 29 de outubro, três dias depois de a presidente Dilma Rousseff ser reeleita, quando os parlamentares da CPMI ainda estavam imersos no clima da campanha, o delator Mendonça foi ao Ministério Público Federal, em São Paulo. Deu detalhes de como as empreiteiras operavam na Petrobras. Mendonça divide o esquema em 11 etapas, desde o nascedouro ainda na década de 1990, como forma de “proteger” as empresas. Nascia ali o rascunho do, nas palavras dos delatores, “clube”. Segundo Mendonça, o esquema ganhou robustez quando Renato Duque, indicado por José Dirceu e pelo PT, assumiu a diretoria de Serviços, e Paulo Roberto, indicado pelo PP, tornou-se diretor de Abastecimento, em 2004. O clube dobrou de tamanho em 2006 e chegou a 16 empresas. Em 2007, na esteira dos investimentos bilionários da Petrobras, o clube dividiu-se. Surgiu o “clube VIP”, apenas com empreiteiras capazes de tocar obras bilionárias, como a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Entre as VIPs, estavam Camargo Corrêa, OAS e UTC, cujos dirigentes estão presos. A UTC informou, por meio de nota, que desconhece a existência de um “clube de empresas” e repudia afirmações que a relacionam um “suposto cartel”. “Ao longo de 40 anos a UTC conquistou contratos sempre seguindo procedimentos legítimos”, diz a nota.

EM BRASÍLIA O procurador Rodrigo Janot (no alto),  o ministro Teori Zavascki (à esq.)  e o plenário da CPMI. Zavascki ordenou  a soltura de Duque  na semana passada (Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo (2) e Ag. Seando)

Segundo Mendonça, criou-se uma espécie de regulamento, como num campeonato de futebol, em que todos ganhavam – menos a Petrobras, claro. De acordo com Mendonça, Ricardo Pessoa, presidente da empreiteira UTC, era o coordenador: disparava mensagens de texto para os celulares de cada representante do grupo e marcava as reuniões, geralmente na sede da UTC, na Zona Sul de São Paulo, ou na filial, no centro do Rio de Janeiro. Pessoa destacava, segundo o depoimento, um funcionário para distribuir crachás, a fim de evitar que a entrada de representantes das outras empresas fosse registrada na portaria. Nas reuniões, prossegue o depoimento, combinava-se quem ficaria com que contrato e que empresas do cartel simulariam concorrência. Depois, Pessoa entregava a Duque a lista com os contratos que as empresas do clube tinham interesse. “Pessoa era o meio de campo, o intermediário, com Renato Duque”, disse Mendonça. Duque, segundo os delatores, cobrava propina por isso. Mendonça, Camargo, Paulo Roberto e o doleiro Alberto Youssef são unânimes: de 1% a 3% do valor do contrato. O montante era distribuído entre políticos e operadores de dentro e fora da Petrobras. Para bancar esses valores, a solução era superfaturar os contratos. Entre 2008 e 2011, o esquema foi próspero. Só os contratos que os delatores conseguiram lembrar de cabeça chegam a R$ 7 bilhões, do Paraná ao Amazonas. Sempre à base de propina. Mendonça diz que pagou entre R$ 50 milhões e R$ 60 milhões a Duque. Camargo falou em R$ 29 milhões.

É a primeira vez que uma investigação reconstitui um esquema em que aparecem claramente o corruptor, o intermediário e o corrompido, no exercício de suas funções criminosas. As provas são abundantes e consistentes. Elas vêm de material apreendido pela Polícia Federal nas sedes das empresas, nas casas de executivos, dos depoimentos de delação premiada de Costa, do doleiro Youssef, do ex-gerente Pedro Barusco e de Mendonça e Camargo. As investigações feitas pelo Ministério Público da Suíça, sobre o envio e a movimentação de dinheiro das empreiteiras em bancos locais, estão mais adiantadas que os investigadores brasileiros esperavam e, num futuro próximo, poderão fortalecer a acusação.

Advogados envolvidos na defesa das empreiteiras estão temerosos da fase da Lava Jato que virá nos próximos dias  – após o “Juízo Final”, em 14 de novembro, a nova onda tem a alcunha de “Apocalipse”. O maior foco de tensão está na Odebrecht, alvo de uma investigação exclusiva, devido a um contrato de R$ 3,1 bilhões assinado em dezembro de 2009 com a Petrobras para a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Uma reportagem de ÉPOCA revelou uma suspeita de superfaturamento num percentual de 18% a 20% e de pagamento de propina por dois diretores a Paulo Roberto e a Duque – além de “colaboração” financeira com campanhas de partidos comandavam o aparelhamento político na Petrobras. Na ocasião, a Odebrecht negou veementemente a acusação.

Os investigadores no Paraná estão reticentes em relação à atuação da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal, principalmente após a soltura de Duque, ordenada na semana passada pelo ministro Teori Zavascki. Na decisão, Zavascki se refere a Moro como “magistrado de primeira instância”. “O fato de o agente supostamente manter valores tidos por ilegais no exterior, por si só, não constitui motivo suficiente para a decretação da prisão preventiva”, diz. Ato contínuo, Moro divulgou a íntegra dos depoimentos dos dois delatores, que incriminam fortemente Duque. Em maio, algo semelhante ocorrera. Zavascki mandara soltar 12 réus presos na Lava Jato, entre eles Paulo Roberto. Moro alertou Zavascki para a possibilidade de fuga dos acusados (vários deles doleiros), e Zavascki reconsiderou sua decisão – mas manteve Costa em liberdade. Um mês depois, com a descoberta de contas na Suíça, Moro ordenou novamente a prisão de Costa e não foi contestado por Zavascki. Policiais e procuradores temem a libertação dos nove executivos de empreiteiras presos no Juízo Final.

A Petrobras poderá enfrentar uma tempestade perfeita em 2015. Além da crise do petrolão e de investigações no exterior, o preço do barril de petróleo chegou ao valor mais baixo em cinco anos. Os principais países exportadores se reuniram para discutir se reduzem a produção para forçar o aumento do preço. A crise que pode ser deflagrada a partir da divulgação da lista dos políticos beneficiados pelo dinheiro desviado da Petrobras deverá pautar a relação do Congresso Nacional com o governo no ano que vem. Haverá um Congresso enfraquecido pelas denúncias e hostil ao governo, por uma oposição mais forte e uma base aliada que cobrará constante ajuda para evitar processos de cassação inevitáveis. Em meio a tantos percalços, será preciso cuidado para que a investigação que gerou todas essas crises não seja posta a perder. É mais saudável passar por todos esses percalços que permanecer sob o manto da corrupção, que produz a falsa sensação de estabilidade. É preciso que a primeira trama prevaleça sobre a segunda.

 

Edição: Equipe Fenatracoop

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