Corrupto é o outro

A corrupção tem um aspecto moral e outro, diga-se, prático. Não creio que se possa sustentar algum argumento que empreste moralidade ao ato corrupto. Do ponto de vista prático, contudo, há quem explique sua eficácia e necessidade. Não falta quem considere, por exemplo, que a corrupção é tão alastrada e entranhada que o indivíduo, diante dela, ou cede, ou é massacrado, simplesmente.

Tome-se um empresário que precisa de determinada certidão em prazo certo. Bem, ou paga por ela, ou não a recebe. Se não a obtém, sua empresa sofre consequências financeiras e legais. Que fazer? Dar um solitário grito heroico em face de uma causa perdida? Não é sensato pedir heroísmo a um indivíduo isoladamente. Os custos para lutar contra o sistema estabelecido são impeditivos.

Há mesmo argumentos articulados com bastante razoabilidade, sustentando que, no Brasil, se não houvesse corrupção, a máquina pública simplesmente pararia, de tão inepta, preguiçosa e viciada que é. Para quem pensa assim, entre o Brasil parado e a propina, esta seria o mal menor.

A corrução acontece em muitos países, em diversos graus e de diversas formas. O problema é que nas classificações internacionais, nós somos destaque. A meu ver, esse fenômeno não é só uma questão da administração pública, mas é, antes, um acontecimento social geral, decorrente da falta de consistência cidadã. Não somos republicanos, simplesmente.

No nosso país, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência é acionado com trotes telefônicos. Seja, muitas pessoas chamam o Samu apenas para se divertir. Temos milhões de domicílios de gente honesta furtando sinal de TV por assinatura. Sonegamos imposto como raramente alguma outra nação o faz. Não somos muito honestos nem muito legais. Nem solidários nós somos: pouquíssimos se declaram doadores de órgãos.

Isso, de acusar generalizadamente políticos, considero um discurso exculpatório cínico. Os picaretas instalados, seja no Executivo, seja no Judiciário, seja no Legislativo, não são outras pessoas que aquelas mesmas que furtam sinal de TV ou sonegam impostos. Nossas autoridades vêm do ventre da pátria. Fora os membros do Judiciário, que é um poder parentético, sem verificação pública, os titulares dos demais poderes são escolhidos após farto debate feito em público.

Sabe-se, ou se pode saber, perfeitamente em quem se está votando. Se votamos e repetimos o voto, como ordinariamente acontece, em pessoas sabidamente dadas ao ilícito, não podemos nos permitir surpresas indignadas. Nós nos temos justificado além da conta, participado quase nada das questões de ordem coletiva e acusado “o outro” com extrema facilidade. A coisa pública, em geral, onde vigem valores republicanos, é de todos; aqui, é de ninguém.

Leio entrevista de Dilma Rousseff (DC12ago14). Trago excertos: “Acredito que tivemos uma relação muito mais transparente, muito mais firme com a questão da corrupção. Por isso, aparecem mais casos. […] No passado, não aparecia porque não se investigava. A partir do governo Lula, isso foi feito. Todas essas construções começaram no governo Lula.”

Léo Rosa

Doutor e Mestre em Direito pela UFSC. Especialista em Administração de Empresas e em Economia. Professor da Unisul. Advogado, Psicólogo e Jornalista.

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